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Sobre publis que pagam com recebidos

Sobre publis que pagam com recebidos

Recebi um email de uma plataforma na qual estou cadastrado, que promete conectar criadores de conteúdo com marcas para que, juntos, possam desenvolver conteúdos para trazer ganhos a ambos. O email dizia que havia uma possibilidade de trabalho que tinha a ver comigo, e fui ver do que se tratava. A marca era boa, inclusive, eu sou consumidor dela. O produto é bom, inclusive, já consumi o produto. A ideia do produto é boa, e tem tudo a ver com o que eu falo no conteúdo que crio. O trabalho, de fato, tinha tudo a ver comigo. Só tinha uma coisa que não tinha: a remuneração. A marca dizia que o trabalho seria voluntário e sem remuneração financeira inicial e que, após a veiculação dos conteúdos, apenas os criadores com maiores resultados e que "pontuassem mais" receberiam prêmios em dinheiro. Seria como um jogo, uma gincana. Mas é aí que está o problema.

Eu gosto muito de criar conteúdo, é o trabalho que mais gostei de ter em toda a minha vida, e ele me traz uma série de coisas que o dinheiro não pode comprar: propósito, conexões, aprendizados. Mas nenhum propósito paga as contas, nenhuma conexão compra minha comida e nenhum aprendizado investe dinheiro para a minha aposentadoria. Eu ainda preciso ganhar dinheiro e me sustentar com a criação de conteúdo. É um trabalho, não é uma gincana.

Se você vai fazer uma reforma na sua casa, você não pede para o arquiteto ou para o pedreiro trabalharem em troca de material e divulgação. Se você vai tirar férias, você não pede para uma série de hotéis te hospedar e apenas aqueles que você gostar mais receberão o pagamento pela estadia. Se você vai num restaurante, você não tira uma foto com o garçom e marca ele nos seus stories ao invés de pagar os 10% do serviço. Então, quando uma empresa pede que eu crie um conteúdo em troca apenas do recebimento de um kit com produtos ela está pedindo para que eu trabalhe de graça. Ela pede para que eu use meu tempo, meus recursos e meu conhecimento e, ao invés de criar um conteúdo pensando no meu público e na minha comunidade, eu crie um conteúdo pensando em uma empresa que não está me dando dinheiro nenhum - ainda que seu faturamento possa estar  na casa dos bilhões.

Quando uma marca envia kits de divulgação para criadores de conteúdo sem nenhum tipo de contrapartida e, se esses criadores assim desejarem, algum conteúdo é produzido voluntariamente, estamos falando de outro cenário. É um presente da marca. E, da mesma forma que você não dá um presente de aniversário para alguém e diz que, em troca, a pessoa precisa limpar o banheiro da sua casa, um presente de uma marca não pode exigir nada do criador de conteúdo - nem mesmo que ele mencione o recebimento desse presente em suas redes se ele não quiser. Porém, se uma empresa deseja fazer seleção e recrutamento de criadores para divulgar algum produto a partir de um briefing com instruções, ela precisa separar um orçamento para pagar o criador por esse trabalho.

A profissão de criador de conteúdo digital é recente no mercado e há muita gente que ainda não encara esse trabalho como, de fato, um trabalho. Porém, a criação de conteúdo existe há muito tempo e é respeitada e remunerada em todos os outros meios. Será que alguma marca imaginaria oferecer a chance de uma emissora de televisão exibir seu produto em troca de um recebido? Ou ter um anúncio em todos os jornais e apenas aquele que convertesse em mais vendas seria o remunerado? Porém, por alguma razão, muitos ainda acreditam que esse tipo de prática com criadores de conteúdo digital são aceitáveis. Enquanto isso, as companhias de luz, água e internet não se importam se o nosso trabalho é respeitado ou remunerado, o que elas se importam é se, no final do mês, elas serão pagas pelo serviço que nos prestaram, da mesma forma que nós, criadores de conteúdo, também queremos ser pagos pelos serviços prestados a uma empresa.

Claro que eu poderia ficar aqui por parágrafos e mais parágrafos explicando por que empresas deveriam abolir a prática de seleção de criadores para publicidades sem pagamento, mas a gente também precisa entender nossa responsabilidade enquanto criadores nisso tudo, afinal, somos a parte mais interessada. Por isso, eu preciso dizer algumas palavras diretamente para você, que cria conteúdo e está lendo este texto agora:

Não aceite fazer publi em troca de mimo! Não aceite fazer publi que pague só ao vencedor da gincana! Nenhum mimo vai pagar seus boletos. Não coloque a possibilidade de ganho financeiro em uma competição com outros criadores. Não tenha medo de dizer "não" para esses trabalhos, isso não vai te "queimar" com a marca, muito pelo contrário. Se você se apresenta para a marca como alguém que aceita trabalhar apenas em troca de recebidos, o dia em que eles pensarem em pagar alguém por um conteúdo, não vai ser de você que eles vão se lembrar. Por outro lado, se você, educadamente, recusar o convite, explicando que adoraria trabalhar com a marca, mas não faz trabalhos sem pagamento, você demonstra respeito ao seu trabalho e ao seu público, além de um profissionalismo muito maior. E isso não é bom apenas para você, mas para toda a nossa categoria profissional. Apenas quando for consenso entre criadores de conteúdo que não se cria nada para marcas que não estão pagando, nenhuma empresa vai perder seu tempo oferecendo esse tipo de proposta desrespeitosa.

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